domingo, 29 de novembro de 2015

Um desabafo sobre amigos secretos, sobre culpas e sobre ser mulher.


Hoje, tava aqui de madrugada pensando na conversa que tive com minha amiga Karol Beckman​ sobre abuso e violência contra a mulher quando me deparei com o vídeo que estou postando aqui. Para as meninas que quiserem assistir, ele é um tanto pesado, num sentindo emocional e o achei bem forte, mas valeu a pena ver.




O texto é longo mesmo e foda-se se você não gosta de textão é só não ler.
Mas a moral da história é que hoje desenterrei uma situação de abuso que aconteceu no meu passado (não muito distante, mas também não muito recente), a qual eu não estou afim de expor aqui. Na verdade, eu raramente estou afim de expor essa situação. E é bem verdade verdadeira é que eu só consegui conversar sobre o assunto com uma pessoa até hoje. Aí parei para pensar nos motivos pelos quais eu não consigo falar sobre isso. Não sei se foi porque foi com alguém relativamente próximo, se foi por vergonha de narrar a situação. Sei que no dia que ocorreu eu só pensava que eu dei motivos para isso acontecer e que na real eu estava sendo sensível de mais por me importar com essa situação.
Mas sei que no dia eu me senti suja e usada, eu senti muita vergonha de mim mesma, já que ninguém sequer sabia o que tinha rolado. Eu chorei escondido no banheiro, eu voltei pra casa sozinha muito desesperada.
E permaneci achando que eu tinha dado motivos para que aquela situação acontecesse. E talvez essa parcela de culpa que eu acho que tenho é o que me faz manter certo silêncio até hoje.
Ai eu penso que não precisei de nenhum #meuamigosecreto pra ter acesso a relatos de outras mulheres, muito pelo contrário. Quantas vezes ouvi relatos de amigas próximas sobre situações de abuso que elas sofreram, narradas como algo normal, que acontece, porque ela tava bêbada, porque ela pediu, porque afinal, se você se coloca numa situação sozinha com um cara na real você tá dando motivos para ele fazer o que quiser com você.
Que loucura, não? É muito louco isso. Tá tão marcado dentro da gente que é tratado como normalidade por  ninguém menos que nós mesmas.
No vídeo da Jout Jout ela chama: "vamos fazer um escândalo" .Não fizemos um escândalo tão grande com o uso do #amigosecreto, na minha opinião, fizemos um barulhinho. E vejo, por parte das mulheres, respostas positivas, por parte de muitos homens, comentários do tipo "ah mas não pode estragar a vida do cara por causa de uma coisa que ele fez bêbado há cinco anos atrás.".
Mas a nossa vida pode estar estragada, a gente pode se sentir um lixo humano em inúmeras situações. Nem sei se conheço uma mulher que possa afirmar com todas as letras e com sinceridade no coração que nunca sofreu um abuso. Mas não podemos falar nada, nem usar uma hashtag nas redes sociais que já estamos exagerando.
Meu povo, se eu quisesse exagerar, o bicho ia pegar. E minha situação é bem tranquila perto de outras histórias que eu conheço.
Amigos homens, vocês que tem irmãs, filhas, tias, primas, mães, saibam: elas sofrem todo o tipo de violência que vocês consideram exagero. E elas sofrem caladas.
Eu sofri calada a situação que eu passei. Eu permaneço calada, mas esse texto foi uma forma de criar coragem para expor minimamente como eu me senti. Eu não me sinto segura para expor minha situação. Eu tenho medo e vergonha. Eu sou uma mulher que foi reprimida a ponto de ter consciência da importância de “fazer um escândalo” e ficar engasgada com as palavras mesmo assim. A minha vida foi e sempre vai ser marcada pela culpa que o machismo me ensinou que eu tenho e eu posso me esforçar pra discursar contra isso e defender uma posição contrária. Mas a forma como eu me sinto é profundamente marcada pela culpa. A culpa que eu sei que não é minha, que não foi das minhas amigas, por mais que elas afirmem que foi. A culpa que jogaram pra cima da gente sem dó.
Quer saber se eu tenho dó de homem exposto com hashtag? Tenho não. Por mais que seja um assunto complexo e delicado, não é difícil ser homem numa sociedade que começa a ver mulheres se mobilizando não, querido, difícil é ser mulher. Tenho dó não. Se você ouvir minha história vai fazer cara triste, mas no fundo vai achar que não foi nada demais. Mas eu precisei de um banho de água fervendo depois, misturado com minhas próprias lágrimas, pra lavar um pouco do que eu senti naquele dia. No dia ninguém teve dó de mim.
Por esses motivos, digo aos meus amigos, pois sei que tenho alguns muitos respeitosos e que se esforçam pra não ser o #amigosecreto de ninguém: por mais que vocês tentem entender, porque mais que vocês queiram ser bons, por mais que vocês se esforcem, vocês nunca vão saber como é até acontecer com vocês, por isso, sejam cuidadosos em suas colocações sobre o assunto.
Enfim, não me peçam pra contar quem foi e quando foi. Meu intuito aqui não é expor uma pessoa, mas sim uma sensação. Compartilhar essa experiência é algo que eu só posso fazer se me sentir segura e não me sinto segura no contexto atual.
Para as mulheres, minhas amigas, minhas familiares, que passam pelo que eu passei, só tenho a desejar que tenham força pra fazer um escândalo na hora, pra dizer o não, pra se impor como for preciso. Nós estamos muito ferradas e muito marcadas por todas essas sensações horríveis, mas precisamos ser fortes, não apenas por nós, mas pelas meninas que um dia virão.

Espero que minhas alunas e minhas filhas, se um dia tiver algumas, não se sintam culpadas por serem mulheres. E é nesse futuro hipotético que me apego, porque no presente a coisa ainda tá é bem ruim.