domingo, 8 de maio de 2016

Sobre a minha mãe e o feminismo.



Há tempos penso nesse texto e não encontro a inspiração ou a disposição para escrevê-lo. Hoje, dia das mães, com tantas conversas sobre maternidade, feminismo e empoderamento das mulheres aparecendo no meu contexto, sinto que chegou a hora de fazer essa singela homenagem à minha mãe, Selma Maria Pereira

Todas nós temos aquela música, receita, foto, roupa herdada ou algo que, de forma concreta ou não, nos lembram das nossas mães. Dá minha mãe eu lembro quando escuto Girls just wanna have fun da Cyndi Lauper, ou quando alguém está debatendo apocalipse e invasão alienigena. Mas dentre tantas lembranças que nem caberiam num texto, a principal coisa que vem à minha cabeça quando penso em dona Selma Maria é a frase "Estuda, minha filha. Estuda que é pra você não depender de homem nenhum nessa vida."
Lembro-me dessa frase desde criancinha, quando minhas amigas tinham que lavar louça, limpar casa e cozinhar e eu nem podia fazer nada disso, eu tinha que sentar e estudar. Quantas vezes eu ouvi das minhas amigas que eu não sabia fazer nada, que eu nunca ia conseguir cuidar da minha casa e que era uma vergonha não saber cozinhar.
Minha mãe sempre manteve seu discurso firme: enquanto eu puder cuidar da casa, você vai estudar. Que privilégio o meu tê-la em minha vida. Privilégio que ela nunca teve na minha idade, já que por ser filha da amante de um fazendeiro, não receber pensão ou nenhuma ajuda do pai alcoólatra, ela teve que largar o ensino fundamental para trabalhar. De babá, de empregada, em loja... Minha mãe, junto com minha avó e minhas duas tias, não tiverem condições de estudar, pois precisavam comer e morar em algum lugar.
Na minha adolescência ela foi minha melhor amiga e minha maior incentivadora pra tudo. Quando eu queria namorar e meu pai, com seus 6 sobrinhos homens que tinham namoradas da minha idade, foi criar caso, ela defendeu e disse que eu podia namorar também. Ela sempre soube de todos os meus segredos e sempre me apoiou e as mesmas regras que se aplicavam à mim em casa, se aplicavam aos meus dois irmãos.
Quando comecei a estudar para o vestibular, ela nunca duvidou de mim, ao contrário de muitas pessoas da família, das amigas dela, dos meus professores e das minhas professoras, ela sempre me dizia que um dia eu ia conseguir. No dia em que eu passei, em meio ao chororô do meu pai que dizia “Eu achava que você só ia sair de casa pra casar.”, ela disse “Pois eu prefiro que ela saia pra estudar.”.
Seis anos se passaram desde que eu morava com minha mãe, hoje ela mora em Minas e eu aqui em Brasília. Eu me formei, tenho o trabalho do qual amo e no qual acredito, posso estudar, vou pra festa e faço o que eu quiser da minha vida.
Em seis anos eu ligo pra ela ou ela me liga praticamente todos os dias, pra saber como foi o dia e ouvir ou contar novidades.

"Estuda, minha filha. Estuda que é pra você não depender de homem nenhum nessa vida."
Eu não dependo de homem nenhum. E além de tudo estou descobrindo que isso que você me ensinou desde tão cedo rende muito estudo e chama-se feminismo. Existem mulheres que hoje em dia desenvolvem teorias, pesquisas e projetos em cima do conceito dessa frase, que você, sem ter nem o ensino fundamental, compreendeu com base na sua experiência de vida. Você nunca precisou ler Simone de Beauvoir pra ser um exemplo da luta feminista pra mim, você fez sua parte me educando e educando o meu pai, hoje tão tranquilo e incrível, além de educar também meus dois irmãos. Você não faz ideia de quem seja essa mulher que eu mencionei e pra ser sincera, por enquanto nem eu, mas eu vou pesquisar pra você e eu vou estudar o que você nunca pôde estudar por falta de oportunidade. E pode deixar que eu vou dar um jeito de te explicar as coisas de uma forma que você compreenda, como eu sempre tento fazer nas férias quando você me conta as fofocas da família e eu fico indignada com a diferença de tratamento entre as meninas e os meninos.

Hoje em dia eu detesto a sensação de depender de qualquer pessoa, mas principalmente de homens. Me ofende um cara querer pagar algo pra mim e tenho até certos problemas em me relacionar por não querer depender nem emocionalmente de ninguém (essa parte eu trato depois na terapia, quando criar coragem pra fazer). Eu aprendi a me virar sozinha, eu aprendi que estudar é bom, me encontrei profissionalmente e distribuo um pouquinho desse feminismo da dona Selma Maria pras alunas e pros alunos que passam pela minha sala de aula.
Ah! Eu aprendi também a cozinhar (muito bem, obrigada) e cuido da minha própria casa há muitos anos (que é minha mesmo, não do meu marido). Moral da história: a louça que minha mãe não me deixou lavar não fez falta e quando tenho medo de usar a panela de pressão eu ligo pra ela, que me ensina e monitora esse uso, mesmo à distância. Essas coisas a vida ensina, como dona Selma mesma diz. Já o empoderamento que hoje sinto que tenho nunca existiria se ela não insistisse tanto para que eu estudasse e não dependesse de ninguém.

Agora, me dirijo diretamente aos poucos homens que eu sei que vão ler isso aqui: um dia um amigo meu saiu falando aí numa rede social que respeita muito o feminismo da Simone de Beauvoir, mas que acha que esse movimento das minas na internet não é esse feminismo. Quem são vocês pra julgar o que é feminismo ou não? Se o feminismo da internet não é válido, vocês tão tentando anular o feminismo da minha mãe também, que nem sabe o que isso quer dizer, mas sabe o que fazer na hora de formar uma feminista maluca que não vai ficar de boa com homem cagando regra sobre uma coisa que só as mulheres viveram, vivem e ainda vão viver. Respeitem as minas e sintam-se à vontade para perguntar sobre o feminismo, mas tomem cuidado com as afirmações de vocês. Cês podem estudar teoria feminista o quanto cês quiserem, mas nunca vão ter a experiência de ser mulher. Nunca vão ser tão sábios nesse sentido quanta dona Selma Maria Pereira.


Ps: Desculpem a simplicidade do texto, tem tanta coisa que sinto que não consegui expressar ainda. A musiquinha é a favorita da minha mãe <3