Há tempos penso nesse texto e não encontro a inspiração ou a disposição para escrevê-lo. Hoje, dia das mães, com tantas conversas sobre maternidade, feminismo e empoderamento das mulheres aparecendo no meu contexto, sinto que chegou a hora de fazer essa singela homenagem à minha mãe, Selma Maria Pereira.
Todas nós temos aquela música, receita,
foto, roupa herdada ou algo que, de forma concreta ou não, nos lembram das
nossas mães. Dá minha mãe eu lembro quando escuto Girls just wanna have fun da
Cyndi Lauper, ou quando alguém está debatendo apocalipse e invasão alienigena.
Mas dentre tantas lembranças que nem caberiam num texto, a principal coisa que
vem à minha cabeça quando penso em dona Selma Maria é a frase "Estuda,
minha filha. Estuda que é pra você não depender de homem nenhum nessa
vida."
Lembro-me dessa frase desde criancinha,
quando minhas amigas tinham que lavar louça, limpar casa e cozinhar e eu nem
podia fazer nada disso, eu tinha que sentar e estudar. Quantas vezes eu ouvi
das minhas amigas que eu não sabia fazer nada, que eu nunca ia conseguir cuidar
da minha casa e que era uma vergonha não saber cozinhar.
Minha mãe sempre manteve seu discurso
firme: enquanto eu puder cuidar da casa, você vai estudar. Que privilégio o meu
tê-la em minha vida. Privilégio que ela nunca teve na minha idade, já que por ser
filha da amante de um fazendeiro, não receber pensão ou nenhuma ajuda do pai alcoólatra,
ela teve que largar o ensino fundamental para trabalhar. De babá, de empregada,
em loja... Minha mãe, junto com minha avó e minhas duas tias, não tiverem
condições de estudar, pois precisavam comer e morar em algum lugar.
Na minha adolescência ela foi minha melhor amiga e minha maior
incentivadora pra tudo. Quando eu queria namorar e meu pai, com seus 6
sobrinhos homens que tinham namoradas da minha idade, foi criar caso, ela
defendeu e disse que eu podia namorar também. Ela sempre soube de todos os meus
segredos e sempre me apoiou e as mesmas regras que se aplicavam à mim em casa,
se aplicavam aos meus dois irmãos.
Quando comecei a estudar para o vestibular, ela nunca duvidou de
mim, ao contrário de muitas pessoas da família, das amigas dela, dos meus
professores e das minhas professoras, ela sempre me dizia que um dia eu ia
conseguir. No dia em que eu passei, em meio ao chororô do meu pai que dizia “Eu
achava que você só ia sair de casa pra casar.”, ela disse “Pois eu prefiro que
ela saia pra estudar.”.
Seis anos se passaram desde que eu morava com minha mãe, hoje ela
mora em Minas e eu aqui em Brasília. Eu me formei, tenho o trabalho do qual amo
e no qual acredito, posso estudar, vou pra festa e faço o que eu quiser da minha vida.
Em seis anos eu ligo pra ela ou ela me liga praticamente todos os dias, pra
saber como foi o dia e ouvir ou contar novidades.
"Estuda, minha filha. Estuda que é pra você não depender de
homem nenhum nessa vida."
Eu não dependo de homem nenhum. E além de tudo estou descobrindo que
isso que você me ensinou desde tão cedo rende muito estudo e chama-se feminismo.
Existem mulheres que hoje em dia desenvolvem teorias, pesquisas e projetos em
cima do conceito dessa frase, que você, sem ter nem o ensino fundamental, compreendeu com base
na sua experiência de vida. Você nunca precisou ler Simone de Beauvoir pra ser um
exemplo da luta feminista pra mim, você fez sua parte me educando e educando o
meu pai, hoje tão tranquilo e incrível, além de educar também meus dois irmãos.
Você não faz ideia de quem seja essa mulher que eu mencionei e pra ser sincera,
por enquanto nem eu, mas eu vou pesquisar pra você e eu vou estudar o que você
nunca pôde estudar por falta de oportunidade. E pode deixar que eu vou dar um
jeito de te explicar as coisas de uma forma que você compreenda, como eu sempre
tento fazer nas férias quando você me conta as fofocas da família e eu fico
indignada com a diferença de tratamento entre as meninas e os meninos.
Hoje em dia eu detesto a sensação de depender de qualquer
pessoa, mas principalmente de homens. Me ofende um cara querer pagar algo pra
mim e tenho até certos problemas em me relacionar por não querer depender nem
emocionalmente de ninguém (essa parte eu trato depois na terapia, quando criar
coragem pra fazer). Eu aprendi a me virar sozinha, eu aprendi que estudar é
bom, me encontrei profissionalmente e distribuo um pouquinho desse feminismo da
dona Selma Maria pras alunas e pros alunos que passam pela minha sala de aula.
Ah! Eu aprendi também a cozinhar (muito bem, obrigada) e
cuido da minha própria casa há muitos anos (que é minha mesmo, não do meu
marido). Moral da história: a louça que minha mãe não me deixou lavar não fez
falta e quando tenho medo de usar a panela de pressão eu ligo pra ela, que me
ensina e monitora esse uso, mesmo à distância. Essas coisas a vida ensina, como
dona Selma mesma diz. Já o empoderamento que hoje sinto que tenho nunca
existiria se ela não insistisse tanto para que eu estudasse e não dependesse de
ninguém.
Agora, me dirijo diretamente aos poucos homens que eu sei que
vão ler isso aqui: um dia um amigo meu saiu falando aí numa rede social que respeita
muito o feminismo da Simone de Beauvoir, mas que acha que esse movimento
das minas na internet não é esse feminismo. Quem são vocês pra julgar o que é
feminismo ou não? Se o feminismo da internet não é válido, vocês tão tentando
anular o feminismo da minha mãe também, que nem sabe o que isso quer dizer, mas
sabe o que fazer na hora de formar uma feminista maluca que não vai ficar de
boa com homem cagando regra sobre uma coisa que só as mulheres viveram, vivem e
ainda vão viver. Respeitem as minas e sintam-se à vontade para perguntar sobre
o feminismo, mas tomem cuidado com as afirmações de vocês. Cês podem estudar
teoria feminista o quanto cês quiserem, mas nunca vão ter a experiência de ser
mulher. Nunca vão ser tão sábios nesse sentido quanta dona Selma Maria Pereira.
Ps: Desculpem a simplicidade do texto, tem tanta coisa que
sinto que não consegui expressar ainda. A musiquinha é a favorita da minha mãe <3
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