Hoje, tava aqui de madrugada pensando na conversa que tive
com minha amiga Karol Beckman sobre abuso e violência contra a mulher quando
me deparei com o vídeo que estou postando aqui. Para as meninas que quiserem
assistir, ele é um tanto pesado, num sentindo emocional e o achei bem forte,
mas valeu a pena ver.
O texto é longo mesmo e foda-se se você não gosta de textão
é só não ler.
Mas a moral da história é que hoje desenterrei uma situação
de abuso que aconteceu no meu passado (não muito distante, mas também não muito
recente), a qual eu não estou afim de expor aqui. Na verdade, eu raramente
estou afim de expor essa situação. E é bem verdade verdadeira é que eu só
consegui conversar sobre o assunto com uma pessoa até hoje. Aí parei para pensar
nos motivos pelos quais eu não consigo falar sobre isso. Não sei se foi porque
foi com alguém relativamente próximo, se foi por vergonha de narrar a situação.
Sei que no dia que ocorreu eu só pensava que eu dei motivos para isso acontecer
e que na real eu estava sendo sensível de mais por me importar com essa
situação.
Mas sei que no dia eu me senti suja e usada, eu senti muita
vergonha de mim mesma, já que ninguém sequer sabia o que tinha rolado. Eu
chorei escondido no banheiro, eu voltei pra casa sozinha muito desesperada.
E permaneci achando que eu tinha dado motivos para que
aquela situação acontecesse. E talvez essa parcela de culpa que eu acho que
tenho é o que me faz manter certo silêncio até hoje.
Ai eu penso que não precisei de nenhum #meuamigosecreto pra
ter acesso a relatos de outras mulheres, muito pelo contrário. Quantas vezes
ouvi relatos de amigas próximas sobre situações de abuso que elas sofreram,
narradas como algo normal, que acontece, porque ela tava bêbada, porque ela
pediu, porque afinal, se você se coloca numa situação sozinha com um cara na
real você tá dando motivos para ele fazer o que quiser com você.
Que loucura, não? É muito louco isso. Tá tão marcado dentro
da gente que é tratado como normalidade por ninguém menos que nós mesmas.
No vídeo da Jout Jout ela chama: "vamos fazer um
escândalo" .Não fizemos um escândalo tão grande com o uso do
#amigosecreto, na minha opinião, fizemos um barulhinho. E vejo, por parte das
mulheres, respostas positivas, por parte de muitos homens, comentários do tipo
"ah mas não pode estragar a vida do cara por causa de uma coisa que ele
fez bêbado há cinco anos atrás.".
Mas a nossa vida pode estar estragada, a gente pode se
sentir um lixo humano em inúmeras situações. Nem sei se conheço uma mulher que
possa afirmar com todas as letras e com sinceridade no coração que nunca sofreu
um abuso. Mas não podemos falar nada, nem usar uma hashtag nas redes sociais
que já estamos exagerando.
Meu povo, se eu quisesse exagerar, o bicho ia pegar. E minha
situação é bem tranquila perto de outras histórias que eu conheço.
Amigos homens, vocês que tem irmãs, filhas, tias, primas,
mães, saibam: elas sofrem todo o tipo de violência que vocês consideram
exagero. E elas sofrem caladas.
Eu sofri calada a situação que eu passei. Eu permaneço calada,
mas esse texto foi uma forma de criar coragem para expor minimamente como eu me
senti. Eu não me sinto segura para expor minha situação. Eu tenho medo e
vergonha. Eu sou uma mulher que foi reprimida a ponto de ter consciência da
importância de “fazer um escândalo” e ficar engasgada com as palavras mesmo
assim. A minha vida foi e sempre vai ser marcada pela culpa que o machismo me
ensinou que eu tenho e eu posso me esforçar pra discursar contra isso e
defender uma posição contrária. Mas a forma como eu me sinto é profundamente
marcada pela culpa. A culpa que eu sei que não é minha, que não foi das minhas
amigas, por mais que elas afirmem que foi. A culpa que jogaram pra cima da
gente sem dó.
Quer saber se eu tenho dó de homem exposto com hashtag?
Tenho não. Por mais que seja um assunto complexo e delicado, não é difícil ser
homem numa sociedade que começa a ver mulheres se mobilizando não, querido, difícil
é ser mulher. Tenho dó não. Se você ouvir minha história vai fazer cara triste,
mas no fundo vai achar que não foi nada demais. Mas eu precisei de um banho de
água fervendo depois, misturado com minhas próprias lágrimas, pra lavar um pouco
do que eu senti naquele dia. No dia ninguém teve dó de mim.
Por esses motivos, digo aos meus amigos, pois sei que tenho
alguns muitos respeitosos e que se esforçam pra não ser o #amigosecreto de
ninguém: por mais que vocês tentem entender, porque mais que vocês queiram ser
bons, por mais que vocês se esforcem, vocês nunca vão saber como é até
acontecer com vocês, por isso, sejam cuidadosos em suas colocações sobre o
assunto.
Enfim, não me peçam pra contar quem foi e quando foi. Meu
intuito aqui não é expor uma pessoa, mas sim uma sensação. Compartilhar essa
experiência é algo que eu só posso fazer se me sentir segura e não me sinto
segura no contexto atual.
Para as mulheres, minhas amigas, minhas familiares, que
passam pelo que eu passei, só tenho a desejar que tenham força pra fazer um escândalo
na hora, pra dizer o não, pra se impor como for preciso. Nós estamos muito
ferradas e muito marcadas por todas essas sensações horríveis, mas precisamos
ser fortes, não apenas por nós, mas pelas meninas que um dia virão.
Espero que minhas alunas e minhas filhas, se um dia tiver
algumas, não se sintam culpadas por serem mulheres. E é nesse futuro hipotético
que me apego, porque no presente a coisa ainda tá é bem ruim.
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