Há aproximadamente dez anos atrás, eu usava esse espaço como uma forma de terapia. Não sei porque, mas despejar o que eu pensava e o que eu sentia para um público, em sua maior parte desconhecido, de alguma forma me ajudava a me organizar internamente.
Hoje eu venho aqui como um último recurso. Desesperada para me organizar internamente.
Não sei exatamente quais eram minhas expectativas há dez anos, mas sei que a maioria delas se perdeu nesse caminho.
E junto com elas eu me perdi também, num nível em que eu nunca tinha me perdido antes.
Tenho experimentado nos últimos dias uma sensação muito ruim de caos, que faz com que eu sinta que algo dentro de mim está completamente quebrado. Queria que fosse só um drama de coração partido, mas o que está quebrado envolve todo o meu ser. Talvez seja o que as pessoas chamam de alma.
E eu não tô sabendo lidar com esses fragmentos, há dias, como hoje, em que só pensar já é um esforço tão grande que eu quero desistir.
Mas desistir de que? Se mal consigo pensar em qualquer coisa simples.
Eu relaciono essa sensação de estar quebrada com a minha existência, cujo sentido se perdeu em algum ponto da minha trajetória.
Eu lembro que a vida fazia sentido, mas não consigo me lembrar qual era esse sentido.
Agora eu sinto como se nada fizesse sentido: escrever não faz sentido, trabalhar não faz sentido, comer não faz sentido, existir não faz sentido.
Quando penso no não sentido da existência, eu sinto uma coisa bizarra, uma sensação de que nada perto de mim é real. O copo de café que estou tomando é uma mentira, o cigarro que eu estou fumando é uma mentira, meu corpo é uma mentira.
E eu me afundo na cama tentando ao máximo realmente não existir.
Como se fosse possível.
Aí vejo que fingir não existir não é o mesmo que não existir.
E penso em alternativas para não existir de fato.
Mas não adianta, porque eu não quero deixar de existir a partir de agora. O que eu queria era nunca ter existido.
Eu queria me apagar do universo, da vida de todas as pessoas que me conhecem, para que elas não tenham que saber ou sofrer pela minha não existência.
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