terça-feira, 11 de março de 2014

Diálogo com o monstro que mora na minha caixa torácica.

EU: Hey monstro que mora dentro da minha caixa torácica! Você poderia parar de se remexer um pouco?
MONSTRO: Não, não posso.
EU: E porque não?
MONSTRO: Porque eu estou com fome!
EU: Mas eu comi hoje, até café da manhã eu tomei! Almocei e jantei...
MONSTRO: Você sabe que eu não tô falando disso. To com fome das boas coisas.
EU: Ah.. sei. Olha só...
MONSTRO: Olha só nada! Lá vem você com suas desculpas! Você me enche de sentimentos tranquilos por mais de dois anos. Eu vivi bem, me alimentei só de coisa positiva por tanto tempo e agora você vem com isso! Isso tá me deixando enjoado e irritado.
EU: Cara, o lance é o seguinte: você, que vive aí no meu estômago ou perto do meu coração... sei lá exatamente onde. Você deveria conversar um pouquinho com o monstro que vive no meu cérebro...
MONSTRO: Nem dá ideia errada. Aquele cara não sabe de nada. Ele fica arrumando explicação pra tudo, justifica tudo e se acha todo sabido. Ele não sabe o que é coisa boa! Ele não sabe o que é tranquilidade e felicidade. Ele fica só calculando possibilidades com aquelas linhas do tempo que ele inventa.
EU: Calma aí monstro. Respeite o seu companheiro, vocês moram no mesmo corpo.
MONSTRO: Respeito nada, ele não me respeita. Você acha que eu não sei que é ele que te mostra as imagens mentais que te desagradam? Você acha que a culpa é minha, mas na verdade eu só aproveito as coisas boas. Quando não tem coisa boa nova, eu fico quieto na minha, ruminando as coisas boas antigas... Mas você e o cara que vive no seu cérebro! Vocês dois ficam me mandando essas expectativas ruins, essas imagens mentais piores ainda e todo esse... ressentimento! Que nojo! Vocês não podem achar que eu vou engolir isso calado.
EU: Mas Monstro, você tem que entender que eu preciso desses sentimentos de agora para poder te alimentar com coisinhas melhores no futuro.
MONSTRO: Eu entendo bem, mas realmente não tá dando pra digerir as coisas que vocês tem me mandado. Elas me fazem querer sair gritando por aí e já que você não colabora...
EU: E o que você espera? Que eu saí dando o seu grito por aí? Que eu vomite todas essas coisas sem pensar? Que eu me exponha a esse nível? Você sabe que eu não vou deixar você fazer isso comigo.
MONSTRO: Eu sei e é por isso que eu fico gritando e fazendo você se sentir como alguém que acabou de levar um soco na barriga. Enquanto você me alimentar com essas coisas ruins, eu vou gritar e espernear e te incomodar.
EU: Sem chances de dar um pausa na hora do trabalho?
MONSTRO: Nesse ponto eu te digo que eu tento não te incomodar, mas às vezes não rola... você sabe também que eu prefiro me remexer quando você vai dormir, porque aí você fica toda revoltada e eu fico rindo de você.
EU: Você é realmente mau.
MONSTRO: Sou nada. Você que me criou, você que me despertou. Por muito tempo você me guardou aqui invisível e eu me comportei super bem. Mas aí vem você e os seus dramas, seus sonhos, suas vontades e me acorda! Pra depois me jogar todas as porcarias que restaram dessa bagunça (que você mesma causou com o cara que mora no cérebro) e achar que eu vou ficar de boa? Não vou não. Vou me rebelar! Enquanto vocês não pararem com as...
EU: Com as imagens mentais, eu já sei.
MONSTRO: Enquanto vocês não pararem de tentar me obrigar a digerir essas coisas, eu não vou parar com a minha revolta.
EU: Monstro, você sabe que não vai ser fácil me livrar dessas coisas, não sabe?
MONSTRO: Sei sim.
EU: E você também sabe que eu estou tentando, não sabe?
MONSTRO: Sei sim.
EU: Então saiba que não é hoje que eu vou parar te enviar essas cosias das quais você não gosta.
MONSTRO: Então saiba que eu vou continuar me remexendo e gritando até você se resolver.
EU: Estamos ferrados, então. Espero que o monstro que vive no meu cérebro tenha escutado a nossa conversa e se manifeste em algum momento.

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