Hoje eu acordei cinco horas da manhã, com uma sensação horrível no meu estômago.
Era o excesso de álcool dessa vez. Que bom.
Tentei voltar a dormir, encarando as paredes e meus pensamentos, até que essa luz cinza começou a aparecer.
Primeiro numa fresta, por baixo da cortina e eu fiquei confusa. Eu não sabia por quanto tempo eu já estava acordada e achei que algum aparelho da casa tivesse ligado sozinho.
O cinza foi tomando a casa aos poucos e eu fiquei lutando contra a força dessa cor que queria me tomar também.
Até que eu não resisti.
Levantei. Abri a cortina e encarei esse cinza todo.
E é engraçado como o cinza é frio e desconfortável.
Mas é fato que, às vezes, precisamos encarar o cinza.
Encarei essa que, pra mim, é uma não-cor.
Deixei que por alguns minutos ela me tomasse e me descolorisse.
E aos poucos ela foi sugando o meu vermelho, o meu azul, o meu amarelo, meu verde, meu rosa e todas as outras cores que haviam dentro de mim.
Deixei o cinza me esvaziar, deixei o cinza tomar conta.
Enquanto a cidade e as pessoas revivem as cores do carnaval que termina.
Eu mergulho no cinza.
Parecia impossível voltar a dormir dentro dessa não-cor. Então eu apelei, liguei a velha tv de tubo da minha casa e me concentrei nas cores do jornal que dá bom dia. E fui apagando, na esperança de acordar e encontrar o dia um pouco mais colorido, quando o dia chegasse na metade.
E tornei a encontrar o dia cinza.
E hoje é quarta-feira de cinzas.

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